15/09/2010

O CELIBATO - O Carisma e a Vocação Pessoal - Por Michael Mutinda*

Celibato e Sexualidade.
É importantíssimo salientar que, ao tratar das repercussões do celibato, há que levar em conta que o religioso não abdica de sua sexualidade, mas, sim, renuncia à expressão genital dessa sexualidade. Não há como alguém abdicar de sua sexualidade, uma vez que ela é uma característica estrutural da personalidade de cada pessoa.  
Na maioria das tradições religiosas há o preceito da castidade. Esse preceito é geralmente mal entendido porque lhe é dada uma interpretação moralista, numa tentativa de excluir ou destruir a forca da sexualidade, o que não é possível. Visto que a sexualidade é inerente ao ser humano, não há como suprimi-la. O Maximo que se pode alcançar por esse caminho é a sua repressão da sexualidade, o que é danoso para o ser como um todo as alternativas existentes para lidar com a questão do celibato são, ao contrario da visão moralista, a afirmação e/ ou a transformação da sexualidade. Nesse caso, “não se trata de excluir a energia do sexo, mas de renunciar ao seu uso e à sua dissipação nas relações físicas comuns e procriadoras com indivíduos do outro sexo. Conversa-se o seu potencial, que é, contudo, destacado do plano ‘dual’ e aplicado a um plano diferente.” [1] Para Duffy, desde uma perspectiva espiritual, o celibato não é somente a liberdade de dedicar-se ao apostolado, mas um chamado e uma opção por relacionar-se com Deus e com outros em relações não genitais que geram vida para o sujeito e para os demais.[2] Segundo Evola, na principal maneira para que tal intuito se realize, o celibato não pode depender meramente de uma derivação de uma pulsão sexual, mas, sim, ter o propósito de transcender o sexo, o que é bem diferente. O resultado dessa verdadeira conversão não é a aversão puritana pelo sexo, mas, sim, a indiferença e a calma sentidas perante ele. Tal resultado não pode ser conseguido, acreditam muitos, por obediência[3]. Se essa é a proposta mais claramente religiosa, há que convir ser ela para poucos, como, aliás, levanta Valle:
O problema, no caso dos padres, possui uma dupla especificidade: a igreja propõe a eles um ideal de vida que supõe a castidade celibatária por causa do reino. Ora, essa proposta só tem sentido, psicologicamente falando, para quem tem um nível razoável de maturidade psicoespiritual. O nó do problema é, portanto, saber se os padres são ou não emocional, afetiva e sexualmente integrados e se a dimensão da fé se insere ou não nesse arranjo sua personalidade total.[4]
Para muitos religiosos, essa proposta de celibato como transcendência está bastante distante da pratica de suas vidas, de modo que não raro encontramos tentativas moralistas de lidar com o celibato. Afetos reprimidos não são afetos integrados e, por causa disso, tendem a provocar sofrimento e crises ou uma vida de aparências, com praticas sexuais escusas, culposas, dissociadas. Como bem afirma Duffy, é necessária uma formação integral e um trabalho pessoal que possibilitem o desenvolvimento de uma espiritualidade integradora da afetividade e da sexualidade, para não haver uma cisão entre a oração e a conduta. Às vezes, afirma ele, ma cisão entre vida emocional e espiritualidade deriva de falta de conhecimentos sobre a própria sexualidade, percebida com temor e como tentação, o que faz a pessoa – em vez de escutar-se e discernir o que acontece em seu intimo – fugir, negar ou criticar-se duramente pelo que está sentido. Então, se isso ocorre, a formação recebida antes não permitiu a internalização dos valores e o desenvolvimento das habilidades necessárias para viver a solitude e as demandas do ministério.[5]
Optando pelo celibato, é possível a um padre vivê-lo como uma escolha consciente e livre, fundamentada em uma religiosidade intrínseca. Isso não quer dizer que, uma vez feita essa escolha, o padre já não terá problemas com relação a tal condição. A escolha pelo celibato não é algo que se faça uma única vez, mas trabalho que se realiza durante toda uma vida. É preciso clarear a realidade de que o celibato é uma experiência difícil e cheia de tensão e que se supõe que seja difícil. Isso porque a realidade é que uma vida de castidade celibatária é inevitavelmente solitária, e essa solidão é o ponto mesmo do celibato, não um efeito secundário incômodo[6]. Dlugos afirma que é comum as pessoas de vida consagrada se sentirem imensamente aliviadas quando se dão conta de que a experiência de uma solidão dolorosa tem valor, sentido e propósito, em vez de ser um sinal de que são débeis, inadequados ou inaptos para o estilo de vida celibatário.[7] O que indica a integração ou não da sexualidade para uma pessoa é o sentido que a sexualidade ocupa em sua vida, e isso independe da pratica de relações sexuais.
A vida sexual promíscua, por exemplo, não pode ser tida como integrada, por mais relações sexuais que a pessoa tenha, da mesma forma que a vida celibatária apenas por obediência extrínseca também não pode ser tomada como integrada.[8] Com integração, Dlugos quer dizer o processo que permite que todos os diversos aspectos da personalidade humana funcionem juntos, sem o domínio desordenado de um sobre os outros e sem o menoscabo de algum aspecto em relação a outros. É uma afirmação existencial. Portanto, reconhecer-se como ser sexual é uma das forcas que possibilitam uma vida celibatária saudável e integrada, é um dos fundamentos da identidade sexual.[9] Não podemos, no entanto, deixar de provocar debates do celibato obrigatório, um debate ao qual nenhum católico pode ficar alheio.
Nas considerações acerca de sua pesquisa, Valle sugere que a questão do celibato deve ser trabalhada com mais realismo e humildade no seio de toda a igreja. E completa:
O celibato obrigatório não pode mais continuar sendo objeto de interditos extrínsecos. O debate não pode se restringir à discussão só do lado disciplinar e canônico da questão... Não é uma questão de lei. Contam aqui o carisma e a vocação pessoal. Os próprios padres precisam perceber que o essencial é se ajudar a chegar a uma maestria teologal (não a teológica!) da vivência da sua sexualidade, como ponte para uma espiritualidade que ajude o povo de Deus a viver esse dom com maior liberdade e responsabilidade.[10]  


[1] EVOLA, Julius. A metafícisa do sexo. Lisboa: Afrodite, 1976.
[2] DUFFY, Kevin Flaherty. Espiritualidad, afectividad e integración psicosexual en el acompanãmiento de sacerdontes y religiosas(os). Humanistas: Revista de investigación. San José: Universidad Católica de Costa Rica, n.2, v.2, 2006, p. 104-124.
[3] EVOLA, Julius, Op. Cit. 1976.
[4] VALLE, João Edênio R. (org.) Padre, você é feliz? Uma sondagem psicossocial sobre a realização pessoal dos presbíteros do Brasil. São Paulo: Loyola, 2003.
[5] DUFFY, Kevin,... Op. Cit. 2006.
[6] ÊNIO, Brito... Op. Cit. P. 37.
[7] DLUGOS, Raymond. Enfoques psicoterapêuticos a las dificultades afectivas y sexuales en sacerdotes y religiosas (os). Humanistas: Revista de investigación. San José: Universidad Católica de Costa Rica, n.2, v.2, 2006, p. 68-86.
[8] Ibid. p.68-86.
[9] Ibid. p.68-86.
[10] VALLE, João Edênio R. Sexualidade humana e experiência religiosa. Revista de Estudos da Religião. São Paulo: Loyola, 2006. p. 66-84.


* Fonte: MwanaaSuu.

1 comment:

  1. A sua reflexão acreca do assunto é muito profunda e séria. Como a igreja pode trabalhar esta questão com maturidade?
    keli

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Comentário (Comment)!

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