12/03/2011

NÃO SÓ DE PÃO VIVE O SER HUMANO - Celso Loraschi

1º DOMINGO DA QUARESMA (13 de março)

I. INTRODUÇÃO GERAL
Iniciamos o período da Quaresma com a disposição renovada de mergulhar em Deus, deixando-nos iluminar por suas palavras, questionando-nos sobre nossas atitudes e comprometendo-nos com uma nova vida. Somos fruto da iniciativa amorosa de Deus. Ele nos modelou a partir do barro e deu-nos a vida, insuflando em nós o seu sopro divino. Presenteou o ser humano com uma habitação especial, um jardim que produz toda espécie de frutos. Para conservar o estado de bem-estar e alegria, ordenou-lhe que não tocasse na “árvore da ciência do bem e do mal”.
Porém, a rebeldia dos homens e das mulheres, representados por Adão e Eva, originou toda espécie de males (I leitura). Deus, no entanto, não abandona as suas criaturas. Ele é criador e também libertador. Por isso, como máxima expressão do seu amor, enviou o seu Filho, Jesus Cristo, para nos libertar de todos os males com suas consequências. Se pelo pecado de Adão entrou a morte no mundo, pela graça de Jesus Cristo nos é dada a redenção (II leitura). Para isso, Jesus assumiu plenamente a condição humana, sofreu toda espécie de tentações durante toda a sua vida.
Porém, não caiu nelas. Permaneceu fiel à vontade do Pai, alimentando-se permanentemente de sua palavra e cultivando a sua intimidade pelo silêncio e pela oração (Evangelho). Portanto, a palavra e o exemplo de nosso irmão maior, Jesus Cristo, devem tornar-se o pão nosso de cada dia, que nos sustenta na caminhada desta vida e nos mantém na fidelidade ao projeto de Deus.


II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Gn 2,7-9; 3,1-7): Da argila da terra Deus criou o ser humano
A figura de Deus apresentada nesse relato da criação é a de um oleiro com uma incrível capacidade artística. Percebe-se a intenção dos autores de ressaltar a origem do ser humano, que tem íntima ligação com Deus e com a terra que ele criou. O próprio nome Adão vem de adamah, termo hebraico que designa a terra. É a palavra que deu origem ao homem, entendido aqui como nome genérico da raça humana. Homens e mulheres são seres originados do húmus da terra. A terra, portanto, Deus a fez e a usou como “mãe” da humanidade. Ela é fonte de vida, é fértil e produz todas as espécies de frutos.
Deus é pai, amigo e conselheiro dos seus filhos e filhas. Dá-lhes as instruções necessárias para que possam viver sobre a terra em íntima comunhão com ele e, como decorrência, em solidariedade com todas as coisas. Por isso, Deus pede que não comam do fruto da “árvore da ciência do bem e do mal”. Em outras palavras: os seres humanos devem respeitar a soberania de Deus sobre todas as coisas e submeter-se ao seu desígnio.
Tudo o que ele faz é muito bom. A narrativa busca explicar o motivo do sofrimento pessoal e dos males sociais. A origem de todas as coisas está fundamentada na bondade divina. Foram feitas para o bem dos seres humanos. Por que, então, o sofrimento? Os autores do texto expressam profunda consciência crítica sobre a opressão. Esta se constitui a causa de todos os males. Ao tomarem a figura da serpente como a provocadora da violação da ordem divina, apontam para a sagacidade do poder em “dar o bote” para morder e alienar a consciência humana.
Certamente, o grupo que está por trás do texto conhece muito bem as consequências da monarquia israelita. Analisam a realidade social, denunciando a ambição de grandeza e de sabedoria do regime monárquico, que pretende ser “igual a Deus”, usurpando o poder divino e revelando o domínio sobre os bens e as pessoas. Mas, como diz o adágio popular, “o rei está nu”. A nudez revela que a fraqueza e a condição de mortalidade fazem parte da pessoa. De que lhe adiantam as pretensões de poder e de possessão? Confrontado honestamente com o desígnio divino, o ser humano, pretensamente poderoso, sente-se envergonhado. É claro, pois a conquista e a manutenção do poder envolvem mentiras, enganação, usurpação de bens... Deus, porém, é justo e verdadeiro. Diante dele, nenhuma “folha de figueira” cobre essa nudez, a transparência de sua verdade, por mais que a pessoa busque justificativas.

2. II leitura (Rm 5,12-19): O novo ser humano em Jesus Cristo
Um dos temas dominantes na carta aos Romanos é a justificação pela graça. Para são Paulo, o pecado entrou no mundo trazendo a morte. Esta deve ser entendida não apenas em seu aspecto físico, mas também como realidade pessoal e social, proveniente do egoísmo humano. É herança da transgressão de Adão, representante dos seres humanos. Essa condição de pecadores nos torna incapacitados de nos redimir. Nenhum mérito humano possibilita a salvação. Ela nos é dada por pura graça de Deus, que se revela plenamente em Cristo Jesus.
Com a Lei, ficou explícito em que consiste o pecado. Com Jesus, a Lei foi superada e, sem ela, o pecado já não é levado em conta. Isso acontece porque a graça de Deus foi derramada sobre todos nós, pecadores, redimindo-nos do pecado. Se o pecado de Adão trouxe a morte, a fidelidade de Jesus Cristo trouxe a vida definitiva. Se a rebeldia do ser humano diante do Criador trouxe a condenação para todos, o dom gratuito de Jesus Cristo para todos trouxe a justificação. Se a transgressão do ser humano é fonte de morte, a graça de Deus, por meio de Jesus, é fonte de vida plena. A graça nos reconcilia com Deus e resgata a nossa integridade. Pela graça, é-nos dada a vida eterna.
São Paulo nos convence de que o pecado foi instrumento que possibilitou a manifestação da misericórdia divina. A transgressão do “primeiro Adão” não conseguiu impedir o fluxo da graça. Pelo contrário, fê-la fluir ainda mais abundantemente. Essa certeza nos torna abertos para acolher o perdão gratuito de Deus e nos incentiva a mergulhar sempre mais em sua graça. Deus nos criou por amor e também por amor nos liberta do mal e da morte. O ato de expiação de Jesus, o novo Adão, anulou definitivamente o poder do pecado.

3. Evangelho (Mt 4,1-11): Jesus vence as tentações
Desde o início do seu ministério, Jesus enfrenta o embate com propostas diabólicas que buscam desviá-lo de sua missão de defender e promover a vida digna das vítimas do poder em sua tríplice dimensão. O “diabo”, a antiga serpente, inimigo do plano de Deus para a humanidade (cujas expressões se encontram dentro de cada um de nós como nas próprias estruturas sociais), convida Jesus a seguir outro caminho, procurando fazê-lo abandonar a missão que iria realizar como Messias sofredor. Em toda a sua vida (este é o sentido dos “40 dias e 40 noites”), Jesus foi tentado a dar preferência a uma lógica criada segundo intentos egoístas. Tem a possibilidade de, ou apresentar um falso messianismo, satisfazendo as expectativas dos seus contemporâneos, ou optar pela realização da vontade do Pai, assumindo o serviço de libertação junto às pessoas excluídas.
A primeira tentação indica a dimensão econômica do poder. Jesus, como ser humano, sentiu-se certamente atraído pela proposta de orientar a sua vida para o acúmulo de bens e para o desfrute dos prazeres que eles podem oferecer. Podia até mesmo ancorar-se na “teologia da retribuição”, tão presente nos ensinamentos oficiais dos doutores da Lei, legitimando a riqueza e o bem-estar físico como bênçãos divinas. Porém, Jesus vai por outro caminho. Ele dedica todo o seu tempo e sacrifica a própria vida no cumprimento da missão que o Pai lhe deu em favor do resgate da vida digna sem exclusão. Ao responder que a pessoa vive não só de pão, mas de toda palavra que sai da boca de Deus, aponta para a perspectiva essencial que deve conduzir todos os nossos passos. A palavra de Deus constitui a fonte e a autoridade das quais emana todo ensinamento capaz de realizar as aspirações mais profundas de cada um de nós; é alimento capaz de satisfazer a fome do coração humano, desejoso de inteireza e autenticidade.
A segunda tentação refere-se à dimensão religiosa do poder. O “pináculo”, para além da parte física mais alta do Templo, representa os elevados cargos que um judeu poderia galgar na hierarquia religiosa. Esse caminho de poder, pela via religiosa, proporcionaria a Jesus prestígio e proteção muito especiais. A pessoa envolvida na “auréola” de uma espiritualidade legitimada pela ideologia do sistema religioso oficial, como era o caso do templo de Jerusalém, sente-se assegurada pela “blindagem” que seu status religioso proporciona. Jesus poderia apegar-se à sua condição divina e mostrar “sinais do céu”, como queriam os fariseus e saduceus. Poderia “forçar” a providência de Deus, solucionando magicamente os problemas humanos. A resposta de Jesus de não tentar o Senhor Deus informa-nos de que a lógica humana deve submeter-se à lógica divina e não o contrário. A vontade do Pai, de forma desconcertante, manifesta-se no caminho da obediência de seu Filho até a morte de cruz. Com isso, cai por terra toda a presunção de querer usar a Deus para a vanglória humana.
A terceira tentação indica a dimensão política do poder. Equivale à tentação da idolatria por excelência: adoração a satanás. É posicionar-se como um ser divino, com o poder de agir, de forma absoluta, sobre pessoas e bens. É a tentação de querer alcançar a felicidade suprema pela auto-afirmação e pelo domínio sobre os outros. Jesus, com certeza, confrontou-se com essa possibilidade de orientar toda a sua vida no sentido de galgar cargos políticos que lhe conferissem força e fama social. As multidões queriam fazê-lo rei... O posicionamento de Jesus, ao rejeitar essa tentação, transforma-se no caminho de superação de todo domínio e também de todo servilismo. Coloca a Deus como o único Ser digno de adoração. Jesus propõe uma nova ordem social como realização da vontade do Pai e orienta toda a sua missão para a organização dessa nova ordem. Revela, assim, a verdadeira origem do reino de justiça, fraternidade e paz: é dom de Deus e serviço abnegado dos seus filhos e filhas.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO
Deus é criador e libertador. Em seu desígnio de amor, criou o ser humano em íntima união com a mãe terra. Em sua providência generosa, garante as condições de vida digna para todas as pessoas. Deu-nos a missão de cuidar de todas as coisas, sem cair na tentação de “comer do fruto da árvore da ciência do bem e do mal”, isto é, de entrar na ideologia do poder, que tende a dominar as pessoas e se apossar do que é de todos. É preciso respeitar e promover o princípio da soberania de Deus sobre todas as coisas e administrá-las com justiça, evitando toda espécie de exploração.
Não cair em tentação. Durante toda a nossa vida, somos tentados a abdicar do compromisso com o projeto de Deus, deixando-nos levar por propostas diabólicas. Jesus nos ensinou o caminho de superação das tentações do poder em sua tríplice dimensão: econômica, política e religiosa. É claro que a economia, a política e a religião podem ser meios privilegiados para a construção do reino de justiça, paz e fraternidade no mundo, desde que sejam organizadas como serviço dedicado e honesto ao próximo, principalmente às pessoas mais necessitadas.
Ser portadores da graça divina. Com sua obediência radical à vontade do Pai, Jesus nos trouxe a graça da libertação de todos os males e a vida em plenitude. Seguindo seus passos, podemos ser portadores da graça divina, defendendo e promovendo o direito à vida digna sem exclusão. Para isso, são fundamentais o cuidado e o respeito para com a natureza. A Campanha da Fraternidade nos aponta sugestões práticas.


Fonte: Vida pastoral - paulus. 

02/03/2011

Arquidiocese de Salvador promove Seminário Sobre CF 2011 - Jeane Maria e Michael Mutinda *

"O homem foi criado para cuidar da terra, a beleza da loucura de Deus, a consequência do seu amor infinito", disse dom Gregório, bispo auxiliar de Salvador, ao concluir o seminário da Campanha da Fraternidade 2011 que aconteceu no dia 27 de fevereiro, no Instituto Nossa Senhora de Salette, na cidade de Salvador.

O evento contou com a participação de um bom número de leigos e leigas, religiosos e religiosas, de diversas paróquias e dioceses. Foram convidados como palestrantes do evento especialistas e representantes de órgãos governamentais e do terceiro setor para discutir sobre "Fraternidade e Vida no Planeta", tema da CF deste ano.
Seguindo a metodologia do "ver, julgar e agir", o seminário destacou os problemas ecológicos atuais que atingem a sociedade como aquecimento global, fenômeno causado pela emissão de gases poluentes que provocam mudanças climáticas no planeta, tendo como consequências enchentes, secas e queimadas.

José A. Peixoto, membro do grupo de defesa e promoção socioambiental (GERMEN) e Nabôr de Jesus Filho (Apoio Ambiental) mostraram que os problemas ambientais no Brasil, ocorrem desde a época da colonização, passando pelos diversos ciclos da economia (pau-brasil, cana-de-açúcar, café e ouro).

Atualmente, os principais problemas estão relacionados com as práticas agropecuárias predatórias, o extrativismo vegetal e a má gestão dos resíduos urbanos. Segundo os especialistas, os principais agravantes de ordem rural e urbana são:

- a perda da biodiversidade em razão do desmatamento e das queimadas;
- a degradação e esgotamento dos solos decorrente das técnicas de produção;
- a escassez da água pelo mau uso e gerenciamento das bacias hidrográficas;
- a contaminação dos corpos hídricos por esgoto sanitário;
- a poluição do ar nos grandes centros urbanos.

"O índice de desmatamento em nosso território é tão alarmante que chega a pontuar proporcionalmente o Brasil como o segundo país, atrás apenas da China, com maiores áreas devastadas em todo o mundo", afirmou o professor Nabôr.

A análise do tema da CF na ótica da espiritualidade, particularmente sobre a maneira como as religiões percebem e assumem o compromisso ecológico, ficou por conta dos professores Consuelo Medauar (Cristã) e Marcus Alessandro S. Silva (do Candomblé). Os conferencistas concordaram que Deus não fez a natureza para ser destruída pelo ser humano, mas para que os seres humanos, através dela, encontrasse o seu Criador.

A última sessão focou no "agir", e teve como objetivo incentivar os participantes a se engajarem na luta pela defesa do meio ambiente. A partilha e a troca de experiências sobre a importância da reciclagem e da coleta seletiva, o reaproveitamento das matérias primas, entre outros, dominaram os debates. Dom Geraldo, bispo emérito de Salvador, destacou alguns fatores que comprometem o meio ambiente, como a produção do lixo e o esgoto, as poluições. O bispo lembrou que "o ser humano deve aprender a cuidar e preservar a natureza", concluiu.

*Jeane Maria e Michael Mutinda são membros da PJ, são Brás, Salvador.

Fonte: Revista Missões

18/02/2011

NEEDED: MISSIONARY APOLOGISTS - Jonah Makau

Around the second century a new genre of Christian writing began to emerge. It was called Christian apology. It was a public defense of Christianity and was written by educated Christians, converts from paganism, who were called apologists. They defended Christianity from suspicion, criticism, and hostility by vigorously attacking popular religious ideas and practices, and by presenting Christianity as consistent with the best of classical philosophical reflection of the time.

The Christian apology therefore was not addressed to the members of the Church, but to those outside it, especially the imperial authorities. It was written against the background of Christianity being regarded as an illegal religion within the Roman Empire, where Christians were liable to be subjected to persecution for the practice of their faith any moment.

Today, a reality is arising which necessitates apologists or defenders of the faith. Although some people may not feel that Christianity is threatened, many agree that religion, or rather religiosity is. Unlike the apologists who were defending the faith from mostly external forces, today, as Christians, we are finding ourselves having to defend the faith from a rapidly growing secularism from within.

Why? Because while it should have been easy to counter this growing ideology, it is proving to be an uphill task to fight an ideology which has been gradually assimilated into the lives of the people, to an extent that many of us have become its propagators without knowing it. What can you say for example of a young girl in one of our parishes here in Nairobi (Kenya), who has found herself at loggerheads with the pastors after she got what she considered a God-sent lucrative opportunity to make money through advertisement of condoms for a certain company through billboards, television and other far reaching means of the mass media? How can one convince the young girl, and many other young people, that not every opportunity is the will of God and a manifestation of his providence? And note that this issue of contraceptives is just one of the many issues which are against our faith, yet which seem to have been silently accepted by our society.

To me, it is surprising that while in the second century, when the apologists were defending the Church the doctrines were not refined and clear (remember that at that time the controversies about the nature and relations of the persons of the Holy Trinity were on), today the majority of the truths of our faith are clearer to most of us, yet we seem to be finding it difficult to live our faith effectively. The most scaring thing however is that still equipped with this knowledge of our faith, somehow we are finding rational reasons (or excuses) as to why it should not apply to some certain situations of our lives. Call it selective application of the word of God and Church teaching or whatever you want, but the truth is that we are gradually losing the tenets of our faith and this is becoming a culture.

The solution
As a result of this trend, there is a dire need for missionary apologists today. People who do not take evangelization as just proclamation of the gospel, or converting non-Christians to Christ, but as a task of bringing the good news into all the strata of humanity from within and making it new (Evangelii Nuntiandi, 24). This to many may mean re-catecheses or re-evangelization of the already Christians, but to me it means making evangelization a process which embraces “both the personal and collective consciences of the people, the activities in which they engage, and the lives and concrete milieu which are theirs” (EN, 19).

It means re-inculturating the gospel values in the lives of the people, as a way of helping them shed the obscure foreign anti-Christian ideologies, especially the belief that indulgence and rebellion are signs of freedom and a manifestation of the acquisition of human rights. Although this may look like the work of the local clergy, for us Consolata missionaries this could mean including this reality among the new areopaguses of our mission. Why? Because first as missionaries we are aware that inculturation of the Christian faith into peoples’ lives is what evangelization is, and that cannot be separated from witness of life. Second, we also know that witness of life is the first and primary form of evangelization, since this, and only this, gives credibility to the proclamation of the good news of God’s reign, which it itself a permanent priority in mission.

This is what the Church teaches when she reminds us that today people put more trust in witness that in teachers, in experience than in teaching, in life and action than in theories (Redemptoris Missio, 42). May we be fast to see and act on the spreading need to defend the Church from within. May we become apologists of our time.

16/02/2011

Bem - aventurado José Allamano: discípulo e missionário da Palavra

Dia 16 de fevereiro, celebramos a festa do Bem-aventurado José Allamano,
Fundador dos Missionários e Missionárias da Consolata.
     

No dia 30 de setembro de 2010, após dois anos da XII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos ocorrida de 5 a 26 de outubro de 2008, o papa Bento XVI assinou a Exortação Apostólica Verbum Domini. Abordando o tema: "A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja", o papa lembra que "não existe prioridade maior do que esta: reabrir ao homem atual o acesso a Deus, a Deus que fala e nos comunica o seu amor para que tenhamos vida em abundância (cf. Jo 10, 10)" (VD 2).

A Igreja, portanto, é chamada a viver a "tensão missionária de anúncio da Palavra de Deus que cura e redime todo o ser humano; ainda hoje Jesus ressuscitado nos diz: Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda a criatura" (Mc 16, 15) (VD 121). Partindo das considerações da Verbum Domini buscaremos ler a experiência da Palavra vivida pelo Bem-aventurado José Allamano cuja memória litúrgica celebramos no dia 16 de fevereiro.

11/02/2011

Racismo: ninguém sente, ninguém vê, ninguém sabe o que é - Ana Maria Gonçalves

Diante de tantos anos de negação e silêncio, é preciso começar a entender que os preconceitos, como o racismo, são produtos da cultura na qual estão inseridos, e como tais adaptam-se às condições de manifestação aceitáveis e estabelecidas pela sociedade, manifestando-se às claras ou de forma velada e simbólica.

Diante da revelação feita por um famoso cantor brasileiro, negro, de que sua filha de seis anos estava sendo discriminada durante a aula em uma das escolas de balé mais tradicionais de São Paulo, com as outras alunas se recusando a dar as mãos para ela, ou do depoimento de uma menina, também de seis anos, aluna de escola pública, no qual conta que as coleguinhas não querem brincar com ela durante o recreio porque sentem nojo por ela ser negra, resta-nos parar e perguntar: a quantas situações de humilhação essas e outras crianças continuarão a ser submetidas pela vida afora, antes que a sociedade tome para si a responsabilidade de discutir, entender e combater o racismo?

O racismo, como o percebemos hoje, é uma instituição relativamente recente na história na humanidade. Até por volta da Idade Média, os principais fatores de discriminação eram religiosos, políticos ou referentes à nacionalidade e à linguagem do indivíduo. No século XV, quando os europeus desembarcaram na África, e principalmente com o início do tráfico negreiro, usaram a ciência a favor do colonialismo e desenvolveram teorias de superioridade evolutiva, baseadas em diferenças biológicas, que justificavam seus interesses de expansão e poder. Estava criado o racismo etnocêntrico, fundamentado em doutrinas bíblicas, filosóficas e científicas que não resistiram à evolução dos tempos, mas que deixaram marcas indeléveis e profundas nas sociedades que as usaram para justificar a escravidão, como é o caso da sociedade brasileira. O conceito de "raça" - e termos derivados - hoje em dia é apenas político e social, e se justifica porque os traços físicos (cabelo, cor da pele, formato de nariz e boca etc) característicos da população negra ainda estão ligados à percepção negativa historicamente construída.

No final do século XIX, com a abolição da escravatura e ainda sob forte influência das teses de superioridade europeia, começa a ser colocado em prática um projeto de construção de uma nova nação brasileira, que deveria ser melhorada através do embranquecimento de seu povo. Acreditava-se que, com o passar dos anos, marginalizada, inferiorizada, difamada e abandonada à própria sorte, a população negra desapareceria. Até mesmo o acesso à educação e a possibilidade de conseguir trabalho lhe foram negados, com o governo dando total prioridade a políticas que subsidiaram a vinda de mais de 3 milhões de imigrantes europeus para o Brasil. Algumas décadas mais tarde, a teoria do embranquecimento deu lugar à da miscigenação, que acabou criando um dos mitos mais prejudiciais à luta contra o racismo: o mito da democracia racial. Foi ele que, durante décadas, impediu o Brasil de se tornar um país realmente democrático, com tratamento e oportunidade iguais para todos, ao negar reconhecimento a um problema que atinge mais da metade da nossa população.

Diante de tantos anos de negação e silêncio, é preciso começar a entender que os preconceitos, como o racismo, são produtos da cultura na qual estão inseridos, e como tais adaptam-se às condições de manifestação aceitáveis e estabelecidas pela sociedade, manifestando-se às claras ou de forma velada e simbólica. É por isso que apenas a razão, que nos levou a criar leis que criminalizam atitudes racistas e algumas ações afirmativas, não será suficiente para modificar o imaginário e as representações coletivas negativas que se tem do negro na nossa sociedade, como observa o antropólogo e professor Kabengele Munanga na apresentação do livro Superando o racismo na escola. Segundo ele, "considerando que esse imaginário e essas representações, em parte situados no inconsciente coletivo, possuem uma dimensão afetiva e emocional, dimensão onde brotam e são cultivadas as crenças, os estereótipos e os valores que codificam as atitudes, é preciso descobrir e inventar técnicas e linguagens capazes de superar os limites da pura razão e de tocar no imaginário e nas representações. Enfim, capazes de deixar aflorar os preconceitos escondidos na estrutura profunda do nosso psiquismo".

Se hoje já se admite que o Brasil é um país racista, é preciso admitir também que nossos pensamentos e atitudes são condicionados por essa cultura e essa ideologia racista, pois crescemos introjetando e reproduzindo o que já está estabelecido socialmente. Para mostrar como isso funciona, um interessante trabalho, desenvolvido no departamento de Psicologia da Universidade Federal de Sergipe, analisa pesquisa realizada com crianças de 5 a 8 anos. Foi pedido a essas crianças que desenhassem uma criança branca e uma criança negra e as classificassem, em termos de preferência, em relação a cinco categorias: riqueza, beleza, inteligência, proximidade e contato. O resultado foi um alto índice de racismo, com a criança negra sendo fortemente rejeitada em todas as categorias. O que o estudo queria mostrar é que as crianças são abertamente preconceituosas, e que essa característica perde força a partir da maturação das estruturas cognitivas que permitem que ela deixe de julgar as pessoas com quem se relaciona apenas pela aparência e passe a levar em conta conceitos como bondade ou amizade. Acabou mostrando também que o racismo, longe de desaparecer com a idade e a necessidade de socialização, caso não haja nenhuma iniciativa nesse sentido por parte de pais e/ou educadores, é introjetado e velado pelo aprendizado das normas sociais vigentes, passando a se manifestar de forma indireta e, em muitos casos, inconsciente. O racismo volta então a habitar e alimentar o inconsciente coletivo, que trata de reproduzi-lo de uma geração para outra, tornando-o cada vez mais insidioso, difícil de provar e combater.

Por isso, cabe tão bem a pergunta da campanha Diálogos Contra o Racismo - Pela Igualdade Racial: onde você guarda seu racismo? Complemento com mais uma: o que você tem feito para não deixá-lo de herança para seus filhos?

*Esta matéria é parte integrante da Revista Fórum, edição 94, de janeiro de 2011, em circulação nas bancas. Para assinar acesse - http://www.publisherbrasil.com.br/revistaforum/. Para conhecer acesse http://www.revistaforum.com.br/

Fonte: Revista Fórum

09/02/2011

HIV/Aids: Combate ao preconceito - Maria Emerenciana Raia *

"A Aids não é mortal. Mortal somos todos nós" (Herbert de Souza, o Betinho).
         Em 1988, a Organização Mundial da Saúde - OMS, instituiu o dia 1º de dezembro como o Dia Mundial da Aids. Com o passar dos anos e o avanço no conhecimento da doença, a data tornou-se o Dia Mundial de Combate ao HIV. Muito mais que o combate à doença, é necessário uma luta contra o preconceito. O portador do vírus HIV ainda é marginalizado, tanto pela família, quanto pela sociedade. Poderíamos fazer uma comparação entre os portadores do HIV hoje e os leprosos no tempo de Jesus. O Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) afirma que há mais de 6.800 novas contaminações pelo vírus HIV no mundo todos os dias e mais de 5.700 mortes diárias em virtude da doença.

De 1980 a junho de 2009, foram registrados 544.846 casos no Brasil, de acordo com o Departamento de Doenças Sexualmente Transmissíveis, Aids e Hepatites Virais, do Ministério da Saúde. Durante esse período, mais de 200 mil mortes aconteceram em decorrência da patologia. O Boletim Epidemiológico Aids/DST de 2009 indica que 8.157 homens e 5.501 mulheres receberam o diagnóstico no país, sendo que a maioria tem entre 40 e 49 anos. Mas, na comparação entre 2008 (20.744 em homens, e 13.733, em mulheres) e 2007 (20.496 em homens e 13.411, em mulheres), a ocorrência tem se mantido estável.

A razão de sexo (número de casos em homens dividido por número de casos em mulheres) diminuiu consideravelmente do início da epidemia para os dias atuais. Em 1986, era de 15 casos em homens para cada um em mulheres. A partir de 2003, estabilizou-se: para cada 15 diagnósticos em homens, há dez em mulheres. O que chama a atenção é que, entre 13 e 19 anos, o número é maior entre as meninas: dez contra oito em meninos. O que comemorar então no dia 1º de dezembro? Não se trata de comemoração, mas sim, de conscientização. Os portadores do HIV são nossos irmãos e irmãs, e por isso merecem respeito. Muitos sofrem mais com o preconceito, do que com os efeitos da doença.

Casas de Apoio
Os missionários da Consolata assumiram oficialmente, em 2008, a causa dos portadores do vírus HIV como "missão" na cidade de São Paulo, mas, já em 1991, padre Valeriano havia fundado o Lar Betania. As Casas de Apoio se tornam novos lares para os portadores do vírus. Não se trata de depósitos de seres humanos que esperam a morte. Mesmo no começo da epidemia, quando ainda não existiam os remédios, nas Casas de Apoio se promovia a vida em plenitude, dando esperança e coragem para vencer. Os objetivos das

Casas sempre visaram a recuperação da autoestima, da dignidade humana e divina dos moradores, em vista de uma reinserção plena no âmbito social com os seus direitos humanos respeitados. Elas continuam sendo um espaço físico de amparo e segurança, um ambiente familiar com características próprias onde a acolhida, a solidariedade, o respeito e a partilha garantem um relacionamento socioafetivo indispensável para uma recuperação plena. São quatro Casas que oferecem abrigo, acolhida e apoio: Lar Betania, para adultos, mantida pelo IMC e Casa Siloé, Lar Suzanne e Vila Vitória, para crianças, adolescentes e jovens, mantidas pela Sociedade Padre Costanzo Dalbésio. Há mais de dez anos elas existem, e já ajudaram dezenas de crianças, adolescentes, jovens e adultos a sobreviverem e a adquirirem autoestima suficiente para enfrentarem a sociedade.

Um dia específico de combate ao HIV serve para nos lembrar que a luta contra este vírus é diária, importante, e nunca deve ser negligenciada. Porém, esta data deve também nos ensinar que o combate ao preconceito é eterno. n

* Maria Emerenciana Raia é jornalista e editora da revista Missões. Publicado na edição Nº09 - Novembro 2010 - Revista Missões.

Fonte: Revista Missões

07/02/2011

Nossos avós faziam sexo melhor que nós - Luiz Felipe Pondé

Neste podcast, Pondé menciona uma cena da terceira temporada do seriado de TV americano “The Big Bang Theory“, onde o casal principal – Leonard e Penny – discute sua relação.
A ação fez Luiz Felipe Pondé lembrar da necessidade que as pessoas têm de sempre falar sobre a vida sexual, contar suas preferências e discutir “os segredos da cama”. Segundo ele, nossos avós faziam sexo melhor que nós.
“Se existe uma coisa onde muita conversa e muita explicação não funcionam é na vida sexual“, afirma o filósofo. (para OUVIR o podcast).

“On Death and Dying“

The idea of death makes one aware of one's life, one's vital being – that which is impermanent and will one day end.   When ...