09/02/2011

HIV/Aids: Combate ao preconceito - Maria Emerenciana Raia *

"A Aids não é mortal. Mortal somos todos nós" (Herbert de Souza, o Betinho).
         Em 1988, a Organização Mundial da Saúde - OMS, instituiu o dia 1º de dezembro como o Dia Mundial da Aids. Com o passar dos anos e o avanço no conhecimento da doença, a data tornou-se o Dia Mundial de Combate ao HIV. Muito mais que o combate à doença, é necessário uma luta contra o preconceito. O portador do vírus HIV ainda é marginalizado, tanto pela família, quanto pela sociedade. Poderíamos fazer uma comparação entre os portadores do HIV hoje e os leprosos no tempo de Jesus. O Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) afirma que há mais de 6.800 novas contaminações pelo vírus HIV no mundo todos os dias e mais de 5.700 mortes diárias em virtude da doença.

De 1980 a junho de 2009, foram registrados 544.846 casos no Brasil, de acordo com o Departamento de Doenças Sexualmente Transmissíveis, Aids e Hepatites Virais, do Ministério da Saúde. Durante esse período, mais de 200 mil mortes aconteceram em decorrência da patologia. O Boletim Epidemiológico Aids/DST de 2009 indica que 8.157 homens e 5.501 mulheres receberam o diagnóstico no país, sendo que a maioria tem entre 40 e 49 anos. Mas, na comparação entre 2008 (20.744 em homens, e 13.733, em mulheres) e 2007 (20.496 em homens e 13.411, em mulheres), a ocorrência tem se mantido estável.

A razão de sexo (número de casos em homens dividido por número de casos em mulheres) diminuiu consideravelmente do início da epidemia para os dias atuais. Em 1986, era de 15 casos em homens para cada um em mulheres. A partir de 2003, estabilizou-se: para cada 15 diagnósticos em homens, há dez em mulheres. O que chama a atenção é que, entre 13 e 19 anos, o número é maior entre as meninas: dez contra oito em meninos. O que comemorar então no dia 1º de dezembro? Não se trata de comemoração, mas sim, de conscientização. Os portadores do HIV são nossos irmãos e irmãs, e por isso merecem respeito. Muitos sofrem mais com o preconceito, do que com os efeitos da doença.

Casas de Apoio
Os missionários da Consolata assumiram oficialmente, em 2008, a causa dos portadores do vírus HIV como "missão" na cidade de São Paulo, mas, já em 1991, padre Valeriano havia fundado o Lar Betania. As Casas de Apoio se tornam novos lares para os portadores do vírus. Não se trata de depósitos de seres humanos que esperam a morte. Mesmo no começo da epidemia, quando ainda não existiam os remédios, nas Casas de Apoio se promovia a vida em plenitude, dando esperança e coragem para vencer. Os objetivos das

Casas sempre visaram a recuperação da autoestima, da dignidade humana e divina dos moradores, em vista de uma reinserção plena no âmbito social com os seus direitos humanos respeitados. Elas continuam sendo um espaço físico de amparo e segurança, um ambiente familiar com características próprias onde a acolhida, a solidariedade, o respeito e a partilha garantem um relacionamento socioafetivo indispensável para uma recuperação plena. São quatro Casas que oferecem abrigo, acolhida e apoio: Lar Betania, para adultos, mantida pelo IMC e Casa Siloé, Lar Suzanne e Vila Vitória, para crianças, adolescentes e jovens, mantidas pela Sociedade Padre Costanzo Dalbésio. Há mais de dez anos elas existem, e já ajudaram dezenas de crianças, adolescentes, jovens e adultos a sobreviverem e a adquirirem autoestima suficiente para enfrentarem a sociedade.

Um dia específico de combate ao HIV serve para nos lembrar que a luta contra este vírus é diária, importante, e nunca deve ser negligenciada. Porém, esta data deve também nos ensinar que o combate ao preconceito é eterno. n

* Maria Emerenciana Raia é jornalista e editora da revista Missões. Publicado na edição Nº09 - Novembro 2010 - Revista Missões.

Fonte: Revista Missões

07/02/2011

Nossos avós faziam sexo melhor que nós - Luiz Felipe Pondé

Neste podcast, Pondé menciona uma cena da terceira temporada do seriado de TV americano “The Big Bang Theory“, onde o casal principal – Leonard e Penny – discute sua relação.
A ação fez Luiz Felipe Pondé lembrar da necessidade que as pessoas têm de sempre falar sobre a vida sexual, contar suas preferências e discutir “os segredos da cama”. Segundo ele, nossos avós faziam sexo melhor que nós.
“Se existe uma coisa onde muita conversa e muita explicação não funcionam é na vida sexual“, afirma o filósofo. (para OUVIR o podcast).

06/02/2011

Outro mundo possível: Fórum Social Mundial 2011 começa no próximo domingo em Dacar - Karol Assunção

Depois de quatro anos, o Fórum Social Mundial (FSM) volta ao continente africano. Desta vez, a capital senegalesa, Dacar, terá a oportunidade de sediar o evento que reunirá organizações e movimentos sociais de 123 países. A abertura oficial acontecerá no próximo domingo (6) com uma marcha que sairá da Radio Television Senegalaise (RTS) rumo a Universidade Cheikh Anta Diop, local onde ocorrerão as ações do Fórum.

Quase mil atividades autogestionadas estão programadas para acontecer até o dia 11. Duas delas convocadas pela Agência Latino-Americana de Informação (Alai) para o dia 8 de fevereiro: "A política como desafio: movimentos para os novos paradigmas de mudança”, que ocorrerá de 16h as 19h; e "A informação alternativa a serviço das mobilizações políticas e sociais”, a qual será divida em três mesas de debate, de 9h as 19h.

Como todos os anos, além das atividades autogestionadas; assembleias e celebrações também farão parte dos seis dias de programação do FSM. Destaque para o segundo dia de Fórum, dedicado ao continente anfitrião, com o Dia da África e da Diáspora. A ideia é que as resistências e as lutas dos povos do continente africano sirvam de exemplo para as demais populações do mundo.

De acordo com a organização do evento, três questões nortearão as discussões do FSM 2011: a situação mundial e a crise; a situação dos movimentos sociais pela cidadania; e o processo dos fóruns sociais mundiais. A primeira diz respeito a quatro dimensões da crise do capitalismo: a social, a geopolítica, a ecológica e a ideológica. Na ocasião, também haverá espaço para aprofundar o debate sobre a crise de civilização, apresentada durante o FSM 2009, em Belém, no Pará.

Já nos debates sobre a situação dos movimentos sociais, o foco será as lutas pela cidadania e pelo acesso aos direitos. Dentro dessa perspectiva, dois pontos serão enfatizados: os direitos ambientais na preservação do planeta; e os direitos de migrantes que ultrapassam as fronteiras, com destaque também para as diásporas.
A terceira questão, que trata sobre os fóruns sociais mundiais, apontará a importância do Fórum como lugar estratégico de encontro de movimentos e organizações de todo o mundo. Além disso, ressaltará o valor e a força dos fóruns sociais descentralizados na construção dos FSMs e de grandes mobilizações.

Atividades estendidas

A distância não impedirá aqueles que não puderem ir a Dacar de participar do Fórum. A partir de amanhã (4) até o dia 13, pessoas e organizações de várias partes do mundo podem preparar uma ação à distância e participar das atividades de "Dacar Estendida” do FSM 2011 mesmo sem estar presente fisicamente na capital senegalesa.
Os interessados devem enviar um correio eletrônico para facilit.espaco.fsm.extendido@gmail.com informando: local, data, horário, organização proponente, pessoa de contato, tema e formato da atividade.
Para mais informações, acesse: http://fsm2011.org/br

Fonte: Adital

Paróquia celebra festa de São Brás em Salvador na Bahia - Jeane Maria de Jesus *

Os missionários da Consolata junto com milhares de fiéis comemoraram nesta semana o dia de São Brás (dia 3), padroeiro dos males da garganta. Em Salvador, a festa acontece há décadas de anos, na Paróquia de São Brás, no bairro de Plataforma. A celebração começou ontem com o oficio de Nossa Senhora às 05h de madrugada e missa às 06h e foi se estendendo por todo o dia com outras missas às 10h e às 19h depois da procissão com a imagem de são Brás.
A história de São Brás teve início no século III, contou dom Josefa, bispo auxiliar de Salvador, que presidiu a missa festiva das 10h, junto com os missionários Michael Mutinda, Jacques Kuagala e padre Stephen Murungi (pároco de São Brás). A Igreja celebra no dia 3 de fevereiro a festa de São Brás, um santo venerado tanto no Oriente como no Ocidente e muito conhecido pelo testemunho e sua proteção das doenças da garganta. São Brás nasceu na Armênia no seio de uma família pomposa, de pais nobres, recebeu educação cristã e foi ordenado Bispo quando era ainda muito jovem. Como médico usava os seus conhecimentos para resgatar a saúde do corpo, mas também a da alma, pois se ocupava da evangelização dos seus pacientes.
       Este santo é conhecido como protetor da garganta, porque ao se dirigir para o martírio foi-lhe apresentada uma mãe desesperada com o seu filho que estava sufocado por ter uma espinha de peixe entalada na garganta. Diante desta situação o Santo em Deus curou milagrosamente a criança. Já processado e condenado, São Brás enfrentou muitas torturas sem trair a fé em Jesus, sendo degolado no ano 316. Depois disso, a história se espalhou, contou o bispo.
         Dona Lucia, catequista da paróquia, confirmou as palavras do bispo dizendo que ouve muita gente falar que se sentiu curado depois da benção. Dona Tina mora em Nazaré e todos os anos participa da missa. Reza todos os dias para São Brás e faz questão de participar da primeira missa no final de cada mês em homenagem ao santo.
       Comentando as leituras do dia, dom Josefa disse que "a celebração de hoje nos propõe um compromisso alegre e decidido com a construção do Reino de Deus. O primeiro passo é o acolhimento em nós dessa boa notícia, apropriando-nos dela. Fazer nosso o "sonho" de Deus: um mundo novo de justiça e paz. Para isso precisamos fazer-nos pobres no sentido das bem-aventuranças, pobres de Deus, pobres do Reino. Daí vem os outros passos: lutar pela justiça, construir a paz, promover a dignidade humana", concluiu o bispo.
A benção
       No final de cada missa os fiéis receberam a benção da garganta. Os padres e o bispo colocavam duas velas na garganta enquanto proferiam a oração. Após a missa das 10h, os fiéis se reuniram no salão paroquial para um almoço.

*Jeane Maria de Jesus, membro da Pastoral de Juventude, na Paróquia são Brás, Salvador, BA.

Fonte: Pastoral de Juventude, na Paróquia são Brás

04/02/2011

O amor é fim e não começo - Mike

Não sempre que precisamos explicar algumas coisas que são claras e visíveis; embora, outras parecem, mas não são. Um exemplo clara é a afirmação:“o amor como fim e não como começo...” Por que sempre digo assim:
O amor corre mais rápido do que os acontecimentos que estão no seu caminho. Na vigência do amor, as pessoas vão até o fim das outras muito rapidamente, passando por cima, ambas, de aspectos, maneiras de ser e comportamentos do ser amado.
O amor é uma corrida apressada até o fim e o mais alto do outro. Só depois de, se lá chegar, e viver, e ser, e gozar, e sentir, começam os percursos e percalços da volta, retorno às partes que se tornaram retardatárias, mas existem e se movimentam.
É como o curso de um rio que desemboca no próximo e reflui. Na vigência explosiva ou hipnótica do amor, chega-se logo, e com deslumbramento, ao fim do curso. Aí, há o refluxo. A água volta à origem e no retorno vai passando por partes que ficaram submersas, invadidas ou esquecidas quando as águas passaram aceleradas e torrenciais.
O amor é um começo pelo fim, no qual o meio vem sempre depois com as suas insuperáveis leis. Por isso, corre mais rápido do que as veredas que estão no seu caminho. A vivência de amor é difícil e dolorosa porque significa voltar, depois de ter chegado ao fim, ao auge, ao máximo.
O amor verdadeiro e duradouro é o preço desse retorno sobre si mesmo e a complementação de tudo o que estava no caminho e foi superado pela velocidade e intensidade das águas-paixão. Essa volta vai revelando, dia a dia, momento a momento, as margens de cada um que ficaram esquecidas ou deixadas para depois na passagem turbilhonária e deslumbrante da paixão. Nessas margens estão os mais lindos recantos de cada ser e se escondem aspectos menores e restritivos, os defeitos e imperfeições.
Difícil, portanto, não é a chegada ao fim: é viver os vários refluxos, pois neles estão escondidas as depressões suficientes (ou não) para terminar o amor. Ao mesmo tempo, o amor cresce, na medida em que o refluxo permite descobrir, com mais calma, as partes lindas de cada um, os remansos, as terras fecundas do afeto, as voltas sinuosas, os jardins de paz e de cada existência. As partes férteis de cada ser.
É quando o amor deixa de ser muito bom, para ser mútuo bom. E o amor só é muito bom quando, depois de ter chegado ao máximo (no sentido de ápice, extremo), volta-se sobre si mesmo num refluxo enriquecedor e aumenta depois que passa a ilusão.
O amor é o objetivo último de quase toda preocupação humana; é por isso que ele influencia nos assuntos mais relevantes, interrompe as tarefas mais sérias e por vezes desorienta as cabeças mais geniais.

25/01/2011

PAULO, Apóstolo das nações e ‘comunicador do Crucificado’ - De Michael Mutinda*


Paulo é o homem das encruzilhadas. Viveu e operou em diferentes mundos, línguas e culturas. Desenvolveu uma presença, mais esporádica ou mais continuada, em centros urbanos importantes e disseminados como Antioquia na Síria, Éfeso na Ásia Menor, Filípos, Corinto e Atenas na Grécia, culminando a sua obra no coração do império. Um verdadeiro corre-mundos do Tempo Antigo.
Paulo sempre ocupou uma posição especialmente cômoda: a critica, não menos que a tradição, acredita saber quem foi, onde nasceu, qual o seu caráter, quais foram as etapas fundamentais de sua vida e as datas correspondentes, as cartas que escreveu, quem foram os seus destinatários e inclusive qual o conteúdo e a intenção dessas cartas. Ao tratarmos acerca da biografia de Paulo, temos de considerar as inúmeras controvérsias existentes entre os variados estudiosos que aprofundam o tema. Contudo, não obstante à pluralidade de hipóteses sobre a vida de Paulo, é possível fazer algumas afirmações seguras sobre este polêmico Apóstolo das nações e ‘Comunicador do Crucificado’.
 Comissionamento[1] e Morte
            Lucas é extenso em detalhes ao descrever a perseguição da Igreja por Paulo. Menciona-o primeiro como um jovem (At 7,58) que assistiu com satisfação à horrível execução de Estêvão (At 8,1). Sua aparição seguinte é como o grande perseguidor que penetra nas casas dos cristãos e lança os ocupantes na prisão (At 8,3). Em Gl 1,13 destaca “perseguia sobremaneira e devastava a Igreja de Deus”. Nesses escritos, a questão da perseguição é colocada como pano de fundo para sua atividade de Apóstolo. Mas, Paulo não o faz como auto-condenação, para alimentar um sentimento de culpa, e sim para destacar a gratuidade de ação de Deus ao lhe conceder o ministério de Apóstolo.[2] Sobre a sua mudança de vida, Paulo não fala em conversão, em contraste com os três relatos pormenorizados que Lucas faz da conversão dele. (At. 9,1-19; 22,4-16; 26,9-18.), mas se expressa de forma enigmática em seus escritos para mostrar o que aconteceu em seu encontro com Jesus.

Podemos afirmar que Paulo interpreta o acontecimento de Damasco como um chamado de Deus, uma vocação a uma missão que o assemelha aos profetas do Antigo Testamento. Como eles, foi ele agraciado com uma visão; uma missão lhe foi imposta do mesmo modo que a eles; como eles também, ele é obrigado a corresponder ao chamamento; sua vontade humana é investida pela graça ao ponto de Deus mesmo realizar a obra que lhe foi confiada.[3]

            A experiência que dá novo rumo à existência de Paulo é recordada em diversas passagens de suas cartas (I Cor 7,25) [4] em que ele não descreve pormenores e prevalece o silêncio. Paulo não é um pecador que retorna ao caminho do bem. Por isso, uma forma de se referir a esse acontecimento é falar de uma descoberta de Cristo com os olhos da fé, o filho de Deus, único mediador da salvação.[5] Paulo diz que viu “Jesus” e por isso é apóstolo (I Cor 9,1s). Quer dizer que somente uma experiência lhe valeu tanto como valeram aos demais apóstolos, os irmãos do Senhor e até mesmo a Pedro (v.5). A este contato direto corresponde a ideia de que é Apóstolo ‘não da parte de homem e nem por meio de algum homem’ (Gl 1,1) e que o Evangelho ‘não o recebeu nem o aprendeu de homem nenhum’ (v.12). Também é própria de uma comunicação direta, por seu caráter surpreendente, a ideia de que Deus lhe revela ‘seu Filho’ e lhe pedia que o anunciasse entre os gentios.
Ser Apóstolo de Jesus Cristo é sinal primordial da intervenção divina na vida de Paulo. Quase todas as cartas do “corpo paulino” trazem no início a auto-apresentação do Apóstolo. “Paulo, Apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus” (Rm 1,1) [6] ou com pequena variação de palavras ou nomes de companheiros dele como remetentes junto com ele.
Existem diversas opiniões sobre o que aconteceu com Paulo, desde a sua chegada a Roma até a sua morte como mártir naquela cidade[7]. A última viagem de Paulo se inicia com a decisão de ir a Jerusalém (At. 21,17) para levar algumas ofertas à comunidade. Após ser preso, Paulo é deportado para Roma onde, segundo a tradição, algumas semanas mais tarde, sofreu a pena reservada a um cidadão romano - a decaptação pela espada. [8]

A missão e o anúncio
A consciência da missão faz de Paulo um itinerante. Ele realiza verdadeiros empreendimentos em suas viagens, enfrentando perigos para pregar o Evangelho – anunciar o Crucificado. Os Atos dos Apóstolos descrevem três grandes viagens (At 13-14; 15,36-18; 18,18-20,38), mas ele mesmo fala de muitas: “Fiz muitas viagens. Sofri perigos nos rios, perigos por parte dos ladrões, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar. Três vezes naufraguei. Passei um dia e uma noite em alto-mar”. (II Cor 11,25-26).
O núcleo da mensagem de Paulo é o querigma cristão, o anúncio da morte e da ressurreição de Jesus. O evangelho anunciado por Paulo é muito mais que uma comunicação verbal de doutrinas ou normas, e se fundamenta no anúncio da morte escandalosa[9] de Jesus na cruz e na sua ressurreição como manifestação do poder de Deus.





[1]James Dunn corretamente observa que Paulo se refere a um comissionamento ao invés duma conversão, e que desde o início, teve os gentios em vista. De fato, a epifania de Jesus na estrada para Damasco foi não só a base do seu chamamento, mas constituiu o seu conteúdo principal e o seu impacto mais imediato e mais duradouro. Este chamamento não era um corolário secundário ao encontro, mas, de novo, o seu conteúdo principal. Cf. DUNN, James D.G. A teologia do apóstolo Paulo. São Paulo: Paulus, 2003.
[2]COMBLIN, José. Paulo Apóstolo de Jesus Cristo. Petrópolis: Editora Vozes, 1993. p. 25
[3]CERFAUX, Lucien. O Cristão na Teologia de Paulo. São Paulo: Paulus, 2003. p. 91
[4]Ver também II Cor. 4,1; Gl. 1,5-16.
[5]Cf. BARBAGLIO, Giuseppe. As Cartas de Paulo I. São Paulo: Loyola, 1989. p. 20
[6]Ver também I Cor. 1,1; II Cor. 1,1; Gl. 1,1; Ef. 1,1; Cl. 1,1; I Tm. 1,1; II Tm. 1,1; Tt. 1,1)
[7]Ver algumas opiniões sobre o final da vida de Paulo em: BOSCH, Jordi Sánchez. Escritos paulinos: Introdução ao estudo da Bíblia. Vol. 7. São Paulo: Ave Maria, 2002. p. 37.
[8]COTHENET, E. São Paulo e o seu Tempo. Cadernos Bíblicos – 26. São Paulo: Paulinas, 1985. p. 35
[9]Os cristãos vêem na cruz um símbolo de triunfo, de vitória. No entanto, quando Jesus foi crucificado significava derrota e vergonha. A crucificação entre os romanos era reservada primeiramente aos escravos e para aqueles que haviam cometido crime hediondo (sórdido, repulsivo, imundo etc.), ou seja, a cruz era pena infligida para a pior espécie de malfeitores, ladrões e marginais. Contudo os cidadãos romanos estavam isentos dessa pena por leis especiais. Jesus na cruz foi exposto à vergonha pública. Morrer na cruz era ser exposto a pior vergonha possível para um judeu, que inclusive na cultura judaica significava maldição, como se lê em Gálatas 3.13: “Cristo nos redimiu da maldição da lei quando se tornou maldição em nosso lugar, pois está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado num madeiro”, e Paulo, está fazendo referência a Deuteronômio 21.23. Ele ainda diz que a cruz era escândalo para os judeus: “Nós, porém, pregamos a Cristo crucificado, o qual, de fato, é escândalo para os judeus e loucura para os gentios” (I Cor 1.23.). Cf. ELLIS, E.E. Christ Crucified. In: Reconciliation and Hope: New Testament Essays on Atonement and Eschatology. Grand Rapids: Eerdmans, 1974, p. 69-75.

11/01/2011

Fertilização assistida - Por Antonio Augusto Dias Duarte*

Quantos brasileiros sabem exatamente o que é uma fecundação assistida? Quantos estudantes de medicina e médicos são capazes de informar a um casal estéril sobre o valor ético da recente resolução do Conselho Federal de Medicina a respeito das novas regras sobre o uso dessa técnica avançada de fecundação?

A resolução do Conselho Federal de Medicina atualiza uma anterior do ano 1992 e estabelece uma série de orientações sobre a fertilização artificial, com o intuito de tentar regularizar melhor a utilização dessa tecnologia nos Centros de Reprodução Assistida no Brasil. Há muitos pontos positivos nessa decisão e alguns aspectos que mereceriam maior debate e reflexão da sociedade.

É muito positivo, por exemplo, o limite de finalidade, isto é, a determinação de que a técnica pode ser utilizada apenas para transmitir a vida e não para clonagem ou experiências com seres humanos. Igualmente valiosa é a proibição da redução embrionária, que configuraria aborto diretamente procurado e, portanto, totalmente ilícito.

Um tema da maior importância que não recebeu no documento a devida atenção diz respeito ao número de embriões transferidos para o útero materno. Seria importante aqui considerar a tendência ética que vem predominando em alguns países europeus, tal como a Alemanha, onde se aprovou recentemente uma lei federal que só permite a fecundação, em cada processo, de dois óvulos, que devem necessariamente ser transferidos para o corpo da mulher que quer ser mãe, impedindo assim a existência de embriões congelados.
É muito significativo que um país que permitiu legalmente, no seu passado histórico recente, a existência de campos de concentração com câmaras de gás, não queira mais na atualidade ter em suas cidades nenhuma câmara de congelamento de embriões.

No Brasil se está estudando um projeto de lei sobre fecundação assistida que procurará defender a dignidade da pessoa humana desde a sua concepção, impedindo tanto o aborto direto quanto o congelamento de embriões que sobram das tentativas de geração de filhos. Nesse projeto também se determina um número máximo de óvulos fecundados, não mais que dois, com a imediata e total transferência para o corpo materno, acabando dessa forma com qualquer possibilidade de haver pessoas em tubos de nitrogênio a baixas temperaturas e passíveis de experiências no futuro, caso não sejam mais queridas pelos seus pais.

É muito louvável que os políticos brasileiros estejam assumindo essa atitude de proteção de todos os cidadãos brasileiros desde a sua concepção e queiram que eles, uma vez concebidos, se desenvolvam naquele ambiente mais acolhedor e amoroso, que é o corpo materno, e não num recanto de laboratórios de clínicas de fertilidade humana. E é de lamentar que o Conselho Federal de Medicina não tenha assumido o pioneirismo nessa questão.

A mídia ao dar a notícia sobre a resolução que estamos considerando informou também que casais gay poderiam agora satisfazer seus anseios de paternidade e maternidade. O desejo de ter filhos em geral é moralmente bom, mas para esses casais apresenta-se uma questão ética complexa do ponto de vista da geração. Necessariamente eles terão que contar com doadores anônimos e estranhos a sua relação homoafetiva, e seus filhos terão só o conhecimento de 50% da sua filiação.

Ora, toda geração tem que corresponder à dignidade da pessoa humana, o que não é possível com o desconhecimento legalmente provocado da plena verdade sobre quem são os pais. A relação social fundamental - a relação paterno-filial- tem de fundamentar toda estrutura das demais relações humanas na sociedade. A hipótese aventada pela mídia é claramente incompatível com essa tese e com aquela dignidade e não parece uma decorrência necessária da resolução, embora convenha, de fato, estar alertas, para acompanhar a interpretação que prevalecerá.

É bom observar também que o desconhecimento de quem são os autênticos progenitores não é só causado pela técnica da fecundação assistida heteróloga, mas também por outras formas indignas de transmissão da vida (estupro, prostituição, etc.), e certamente elas são a causa de desenvolvimentos psico-sociais inadequados para nossas crianças.

A pessoa humana, desde a sua concepção até a sua morte natural, tem o direito fundamental à vida digna, segundo leis próprias da sua natureza, desenvolvendo-se corporal e biograficamente a partir de relacionamentos essenciais sadios, como são a filiação, a fraternidade e a amizade no seio familiar, levando assim adiante o seu projeto de humanidade.
As questões levantadas no início do artigo têm respostas bem mais precisas se houver uma reflexão mais profunda sobre o valor do desenvolvimento científico e tecnológico, que ao colocar nas mãos do homem um grande poder de decisão e de ação acaba exigindo-nos outra pergunta.
Nesse sentido o Papa Bento XVI, na sua recente entrevista publicada com o título a "Luz do mundo", conduz-nos a essa interrogação ao dizer que "a modernidade procurou a própria estrada guiada pela ideia de progresso. Mas o que é o progresso? Hoje vemos que o progresso pode ser destrutivo, por isso devemos refletir sobre os critérios a serem adotados a fim de que o progresso seja verdadeiramente progresso".
*
Dom Antonio Augusto Dias Duarte, bispo auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro e médico formado pela USP.

Fonte: ZENIT

“On Death and Dying“

The idea of death makes one aware of one's life, one's vital being – that which is impermanent and will one day end.   When ...